Cenas e reflexões

Cena nº 1 - Três amigos tomando um chopp num bar da Zona Sul do Rio e conversando sobre o site de uma determinada banda da qual os três fizeram parte. Comentário de um deles: "o que eu não estava gostando no site é que ele estava muito saudosista. A gente tem que pensar é pra frente".

Cena nº 2 - Pai e dois filhos parando o carro em frente a casa de uma velha amiga do pai, que os convidou para almoçar. O pai conta para o filho mais novo que, quando conheceu a amiga, tinha mais ou menos a idade dele. Comentário do filho: "parece que todas as coisas legais de vocês aconteceram quando vocês tinham a minha idade".

Cena nº 3 - Diversos amigos que não se vêem há um bom tempo se encontram na casa de um deles para tocar um violão. Nenhuma das músicas relembradas tem menos de 25 anos de idade. Um dos presentes comenta: "vocês têm tantas músicas bonitas mais novas". Outro responde: "mas a gente está aqui pra relembrar as velharias".

Sem dar nome aos bois, eis três cenas que podem ser reais (ou não), e ocorridas num breve intervalo de tempo (ou não). Esse meu caetanear não é uma tentativa de ser impreciso. É simplesmente a constatação que inúmeras cenas semelhantes, com participantes variados e em diversos momentos, costumam acontecer. O encontro de velhos amigos inúmeras vezes vira apenas um eterno desfiar de lembranças nostálgicas, uma celebração de um passado idílico que, na verdade, nunca aconteceu.

Todos os meus velhos amigos estão, como eu, na faixa dos 45 anos de idade. Todos nos conhecemos há 30 anos ou mais. E todos fizemos - ou fomos forçados a fazer - escolhas que nos aproximaram ou nos afastaram dos objetivos que tínhamos aos 20 anos de idade. Mas que foram, de qualquer forma, escolhas. Isso não significa que aquilo que fizemos no passado foi o melhor que poderíamos fazer, ou que o que fazemos agora não é tão bom, ou que nada mais pode ser feito. Pelo contrário, seria bastante possível escolher voltar a fazer alguma coisa juntos.

No entanto, parece bem mais cômodo romantizar "o que foi" do que efetivamente buscar "o que poderia ser". Guardamos as lembranças - boas ou ruins - em pastas e caixas, no fundo de armários. Consultamos esse material quando nos é conveniente e depois tornamos a guardá-lo. Dessa maneira, ele não afetará nosso presente, não nos obrigará a auto-avaliações ou nos incitará a mudanças. Das rápidas olhadas nas pastas e caixas, sobrará apenas a sensação de que "houve um tempo em que as coisas eram diferentes" e, de uma forma geral, "melhores".

E efetivamente eram diferentes, embora não necessariamente melhores ou piores. O tempo passou, a vida passou, as experiências acumularam-se. Nada poderia ser feito, hoje, da mesma forma que há 20 anos. Ainda bem!

O comentário da cena nº 1, na verdade, me fez pensar como historiador: já passou há muito o tempo em que museus eram fotografias estáticas de um tempo que passou. Hoje eles devem refletir o dinamismo da história, a idéia de que ela continua sendo construída a partir de bases que remontam ao passado. Como deveriam ser as reuniões de velhos amigos.


Postado em 27/12/2008 às 10:15      0 comentários

 

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