De volta!... com lapsos televisivos.

Caracas!... Passo duas semanas fora, rodo 3.200 km de moto, tentando me desligar do mundo, e parece que o mundo vai atrás de mim, ou que eu dou de cara com ele de repente. Tenho que me livrar um dia dessa nossa sociedade antenada, que nos faz premir botões pouco depois de tomar muitas vendo a lua nascer na praia e pouco antes de dormir.

Aperto um botão em Brumado e vejo que os israelenses ainda continuam querendo, não importa a qual preço, conquistar a sua "terra prometida". Prometida, diga-se de passagem, por um deus tão egoísta e sedento de sangue quanto eles mesmos. Um deus que tem prepostos: aqueles que, em 1948, venderam a casa alheia - a casa dos palestinos.

Aperto um botão em Montes Claros e descubro que houve um terremoto!... Pôrra!... Eu tava lá e não senti terremoto algum!... Que sacanagem!... Depois de 830 Km em cima de uma moto eu merecia pelo menos ser acordado no meio da noite por alguma catástrofe natural, vendo a cidade se desmininguir, encontrando a Carlota - a cozinheira - morta, sei lá!

Pensando bem... depois da catástrofe que são nossas rodovias, não ia ser qualquer terremoto que ia me acordar, masmo...

Aperto outro botão... ou vários, sei lá... Só sei que, de ontem pra hoje, caíram uns 300 aviões no rio Hudson, e os 300 pilotos eram de Esparta. Ou será que eu ouvi 300 vezes que um A320 caiu em Esparta, e que os 300 passageiros se salvaram por causa de um piloto herói chamado Hudson?

A culpa é dos urubus... Sabe aqueles bichos que comem carniça? Eles entram em turbinas de aviões, bombardeiam crianças em hospitais, provocam enchentes e terremotos, e alimentam com seus bicos fétidos as multidões que os seguem nas telinhas e telões. E fazem coisa pior...

Sim. Pior... Mais um botão... E eis que surge na tela, bem quando eu estava tomando o meu whisky-de-relaxar-depois-de-trocentos-quilômetros-de-estrada, o capítulo final (ou finalmente) da novela.

Puta que o pariu, com todas as letras!... Me perdoem as crianças da Faixa de Gaza, os hipotérmicos do rio Hudson, os desmoronados de Santa Catarina, os afogados do tsunami, as vítimas das estradas brasileiras e do castelo de areia que a casa caiu, pede pra sair!... Tragédia maior que Donatela e Flora não há!

Não o roteiro. Não a direção. Tá certo que ambos já eram mais (muito mais, na verdade) que sofríveis!... Mas a ATUAÇÃO!!!... As caras e bocas da Dona Arrais com tercinho e estátua de Nossa Senhora Aparecida na mão conseguiram superar até mesmo ela mesma, dez minutos antes... Mesmo levando em consideração que a última novela que eu acompanhei foi "Escrava Isaura", eu nunca tinha visto coisa tão... tão...ôps!...

É... não tem palavras pra descrever. Confesso que passei por uns 3 intervalos pra ver aonde a merda poderia chegar. E igualmente confesso que já vi muita merda na TV, incluindo alguns filmes pornôs, mas nada que se comparasse ao que eu vi hoje, naquelas cenas de Flora e Donatela.

Mas... Essa era a "trama principal" da novela. O núcleo de filmagem onde botam os atores que, apesar de sua incompetência patente, possuem atributos físicos que os levam a ser queridinhos do Brasil. Os que dão Ibope. Os que permitem vender propagandas milionárias de algum sabonete.

Pois agora falando sério. Esses pseudo-atores, que possuem outros talentos certamente (como a Dona Arraia para a dança), deveriam parar um pouco para aprender com aqueles dos "núcleos secundários" da novela. Nem que fosse pra ver a atuação soberba da Lilia Cabral - que eu acho que nunca vendeu sabonete - como Catarina, dizendo que não ia se casar.

Fecha o pano. Cai bomba na Faixa de Gaza. Cai avião no Rio Hudson. Eu não caí da cama com o terremoto de Montes Claros. E os terços e miniaturas de N. Sra. Aparecida nas mãos de Dona Arraia cairam mal pacas...


Postado em 16/01/2009 às 23:42      0 comentários

 

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