A velha polêmica sobre ensino religioso

Venho me debatendo com isso desde o tempo da minha graduação, quando fiz uma matéria específica sobre o assunto, e especialmente desde que tive a oportunidade de participar como palestrante em um congresso internacional sobre o assunto, aqui em Brasília.

Vou aproveitar o mote dos comentários da minha amiga Tina Diniz - experiente e dedicada educadora do Rio de Janeiro - ao post sobre o acordo entre o Brasil e o Vaticano, para deixar mais claro o meu posicionamento a respeito do assunto.

Ao meu ver, o problema não é acrescentar o ensino religioso ao currículo das escolas fundamentais. É a educação religiosa confessional, ou seja, aquela destinada a ensinar uma dada religião. E é esta que está sendo preconizada - ou pelo menos incentivada - através de iniciativas como o tal acordo.

Ensinar o que é religião, as diferenças entre as diversas religiões, ou as influências que, no processo histórico de contatos culturais, umas exerceram sobre as outras, é uma coisa. Isso certamente ampliaria o horizonte intelectual dos alunos e permitiria uma melhor compreensão das diferenças entre as culturas. Trabalho, como eu disse, para historiadores, antropólogos, filósofos e sociólogos.

Outra coisa bem diferente é permitir ou incentivar o trabalho de sacerdotes dentro das escolas, ou seja: que uma religião seja ensinada, em detrimento das demais. Isso significa dar o aval institucional para o preconceito e para a discriminação das crenças minoritárias.

E é inútil erguer a bandeira da diversidade, garantindo na letra da lei que o respeito às diversas religiões será observado. Afinal, em qualquer país do Ocidente, sempre será possível encontrar padres ou pastores prontos e dispostos a estender o seu proselitismo aos bancos escolares. Mas de quantos monges budistas ou hinduístas, sacerdotes de cultos afro-brasileiros, rabinos, xamãs indígenas, etc., poderemos dispor?... Em resumo: qualquer ensino religioso confessional no Brasil acabará sendo, quase irremediavelmente, cristão.

Surge aí a questão da matrícula opcional. Desculpem-me, mas isso é mais um item de discriminação flagrante. Como vai se sentir um aluno do ensino fundamental ao não participar de uma aula à qual todos os coleguinhas assistem? E o que ele vai ficar fazendo nesse período? Alguma redação do tipo "o que eu fiz nas férias"?

Note-se, portanto, que a estratégia é muito bem montada... Nosso jovem aluno, com idade entre 7 e 14 anos, não vai querer ser "o diferente" que não participa da aula de religião, ministrada por um padre, por um pastor, ou por algum professor carola. Para integrá-lo, seus pais aceitarão que ele participe. E ele, bombardeado por uma crença que, a princípio, não é a sua, poderá acabar por professá-la para não se sentir excluído... Mais um "adepto" para ser contabilizado...

Não tenho a menor dúvida que o ensino da religião nas escolas pode ser extremamente proveitoso. Mas, para isso, seria necessário a preparação de profissionais especializados na área. Gente que passasse alguns anos numa faculdade aprendendo a dar aula sobre religiões, e não gente que foi guindado ao posto de "professor de religião" e que mal compreende a sua. Ou que, quando compreende, acha que ela é a única verdadeira. Infelizmente, não dispomos desse tipo de profissional no mercado, e nem o poder público, ao assinar seus acordos, leva em consideração que ele possa ser necessário.

Só mais um detalhe, para esclarecer e encerrar: na minha resposta ao comentário da Tina, falei de pessoas que não aceitam "um Deus", mas não necessariamente no sentido daquelas que não aceitam "deus algum". Geralmente, as pessoas que não aceitam "deus algum" estão pouco se lixando para aquelas que acreditam em algum ou em alguns deuses. Não é difícil constatar que a descrença costuma ser bem mais razoável que a crença. Eu quis me referir, antes, àquelas pessoas que existem e devem ser respeitadas: as que aceitam "vários deuses", e que podem se sentir bastante incomodadas ao terem que digerir um "único deus verdadeiro"...


Postado em 05/09/2009 às 00:35      1 comentário

 

Voltar