Trapalhadas internacionais

No último post, falei sobre o que a imprensa (e não só a imprensa) vem chamando de "golpe" em Honduras, mas creio ter deixado claro que não me coloco a favor da forma como a tomada de poder naquele país - constitucional ou não - foi e vem sendo executada. Afinal, restrições às garantias individuais e à liberdade de imprensa são práticas que, embora não sejam de forma alguma incomuns (mesmo fora de situações de exceção), deveriam sempre ser condenadas.

Agora, o mais interessante é a situação inusitada - para não dizer patética - em que o Brasil se meteu, no decorrer da crise. Em primeiro lugar, a afirmação veemente de que não reconhece o novo governo hondurenho. Se não reconhece, por que mantém sua representação lá? Não me parece fazer muito sentido manter relações diplomáticas com um governo que não se reconhece...

Em segundo lugar: mantém-se a representação brasileira em Honduras, mas acolhe-se na embaixada o presidente deposto, com um séquito de mais de 60 pessoas!... Isso é uma embaixada ou um albergue? Pior ainda: Zelaya não busca a embaixada brasileira para pedir asilo político, mas sim para ter, dentro do próprio país do qual foi expulso, uma espécie de "porto seguro", de onde ele pode se dirigir aos seus correligionários e, inclusive, incitar à desobediência civil.

Eis o impasse: se Zelaya sai da embaixada brasileira, é preso. Para ficar, entretanto, deveria pedir asilo. Se pedir asilo, tem de sair de Honduras e desistir das suas pretensões de voltar à presidência, o que ele não quer. E a batata quente está nas mãos do Brasil, que agora começa a ter sua atitude condenada inclusive pelos maiores detratores do "golpe" em Honduras, como os EUA.

Tudo isso me soa não como uma incompetência da diplomacia brasileira, uma vez que não posso duvidar da competência dos profissionais que trabalham em nosso Ministério das Relações Exteriores. Mas eu diria que, pelo menos, houve uma profunda inabilidade. Resultado, talvez, da falta de costume em lidar com situações de crise e, certamente, de uma necessidade de auto-afirmação como "país líder" na América Latina. Parece-me que, desta vez, conseguimos desbancar até mesmo as fanfarronices do nosso vizinho Chavez, e agimos de forma mais semelhante à de um outro Chaves, aquele da TV.


Postado em 29/09/2009 às 12:10      2 comentários

 

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