Sonhos de infância

Hoje, sem mais nem menos, comecei a recordar de um sonho de infância. Não sei se foi alguma coisa que o livro do John Gray despertou, mas sei que me vieram à cabeça umas imagens do tempo que eu tinha uns 9 ou 10 anos... Coisas de menino, enfim.

Eu ficava imaginando, nessa época - e era o início dos anos 70 - como seria a vida hoje, 40 anos depois. Imaginava o futuro como uma espécie de paraíso tecnológico, no qual a ciência teria vencido todas as doenças, todas as barreiras entre as pessoas, toda a pobreza. Não no mundo inteiro, é claro - afinal, eu podia ser ingênuo, mas nem tão ingênuo assim - mas numa espécie de comunidade bastante exclusiva, da qual eu faria parte, ou mesmo criaria.

Nessa minha comunidade - cidade autosuficiente ou país de pequenas dimensões - todos seriam iguais em importância e em posses. Obviamente que a minha mente infantil não se preocupava muito com a forma que essa comunidade se sustentaria. Afinal, numa comunidade tecnológica formada por cientistas, certamente a mecanização proveria os meios...

Mas meus devaneios iam além. Meu "mundo do futuro" era formado por casais, igualmente perfeitos. Eu teria, certamente - assim como todos os outros - minha contraparte feminina, amantíssima, eternamente companheira. Seu lugar não seria, de forma alguma, submisso ou mesmo secundário, mas antes o lugar de uma parceira de todo e qualquer momento. Obviamente que os entraves nesse companheirismo perpétuo causados por coisas simples como a procriação não eram levados em conta.

Eu poderia passar muito tempo descrevendo esses ou outros sonhos de infância, de teor semelhante. Mas o tempo passou... Quarenta anos, quase. Cabe analisar.

No plano psicanalítico, me arriscando a seguir os passos de Carl Schorske, a coisa é até simples. Simplesmente um garoto criado na ilha formada por uma vila militar, filho de oficiais, em plena ditadura militar, recebendo uma educação privilegiada e elitista... E sonhando em preservar seu status, e mesmo o seu grupo de amigos, eternamente. O mundo fora dos portões guarnecidos por sentinelas armados me era tão indiferente quanto seria o mundo fora das fronteiras da minha cidade fictícia... E não foi preciso muito tempo até que eu me visse lançado em um mundo real, de desigualdades prementes com as quais, felizmente, aprendi a conviver.

No plano histórico e filosófico, por outro lado, a coisa se torna mais complexa.

O que revelam os sonhos de um garoto além de suas próprias utopias? Na verdade, todas as utopias. Uma boa parte, se não todas as partes, dos paradigmas da civilização ocidental, desde o advento do cristianismo, estão presentes nesses sonhos.

O que é o "reino dos céus", ou o "reino dos eleitos" a não ser uma ilha de fantasia criada no meio de uma terra com a qual pouco nos importamos? Onde uma elite de escolhidos possa desfrutar de benesses eternas, apartados e independentes de todo o "mal" que os circunda? Um grupo cujo conhecimento o distingua dos demais, a ponto da paz e da harmonia reinarem eternamente no seu seio?

Essa tem sido a raiz de todas as seitas nos últimos poucos mais de 2000 anos: a pretensão de superioridade. A idéia de possuir um conhecimento que aos demais era negado. E neste ponto podemos igualar o manso Jesus aos gnósticos, aos cátaros, aos fundadores de neo-religiões e, ainda, a muitos políticos. Qual o fundamento subjacente ao "filho de deus", aos parfaits, aos jacobinos, aos nazistas, ou mesmo a George W. Bush, a não ser a afirmação de sua superioridade aos demais mortais?

O sonhos infantis são sempre perigosos. Afinal, há uma linha divisória muito tênue entre o isolacionismo e a pretensão de "erradicar o mal". Esta linha, convenhamos, foi inúmeras vezes ultrapassada nos últimos dois milênios. Quase todas em nome de Deus, mas ainda muitas, numa projeção direta, em nome da racionalidade, do "progresso da humanidade", da "pureza da raça", do comunismo ou da democracia.

Não tenhamos muitas ilusões. Membros de uma seita dissidente judaica, cristãos primitivos, gnósticos, cátaros, inquisidores, iluministas, protestantes, jacobinos, socialistas utópicos, anarquistas, comunistas, "defensores da liberdade e da democracia" contra os "terroristas islâmicos", e os próprios "terroristas islâmicos": todos temos a mesma herança. E nesse ponto discordo até mesmo de John Gray. É a herança de um deus que quis ser o único, e que foi tão potente que conseguiu contaminar aqueles que, por reação, querem voltar a ter muitos.

Se a conclusão é histórica, filosófica ou psicanalítica, eu não sei... Mas o que me parece, após essas considerações, é que a trajetória da civilização ocidental está profundamente associada aos meus próprios sonhos de infância: uma tentativa desesperada de se manter ingênua, distante, diferente, superior. E, portanto, má.


Postado em 17/09/2010 às 19:59      0 comentários

 

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