O que é MPB?

Acredito até que algum musicista pudesse me responder essa pergunta de forma convincente, mas isso é obviamente uma questão de crença. Minha ex-professora e orientadora Eleonora, que desenvolve uma pesquisa interessante de história a partir da música, talvez pudesse igualmente dar alguma opinião sensata. Mas eu, como historiador e músico, acabo tendo que tirar minhas conclusões levando em conta mais a prática do que a teoria...

"MPB" é um "termo guarda-chuva" tão abrangente quanto "neopaganismo". Isso não significa, certamente, que qualquer coisa seja MPB, embora muita gente enquadre em ambos os termos acima qualquer coisa que não entendeu muito bem. Não querendo ser excessivamente cruel, o cara que chega pra mim e diz que "toca MPB" sabe tanto o que está tocando quanto o cara que diz que é neopagão sabe qual é a sua religião. Ou seja: não sabe.

Na verdade, alguns estilos de música no Brasil conseguiram criar uma (fraca) identidade a partir de um rótulo qualquer. Samba é samba, embora "pagode" também seja samba e bossa-nova não deixe de ser. Forró é forró, mesmo com a bandalheira introduzida pelas modernas bandas. A Bahia, certamente cansada depois de muitas músicas e músicos bons, decidiu que música baiana era axé. Música sertaneja era uma coisa e virou outra mas, se pensarmos em termos de quem compõe, toca e consome, preservou uma certa identidade. No início da década de 1980, inventaram até um tal de "rock brasileiro", que não era bem rock nem bem brasileiro, mas que se firmou como estilo.

Será que poderíamos definir a MPB por exclusão, então? Não é samba, não é pagode, não é bossa-nova. Não é lambada nem axé. Não é forró. Não é música sertaneja nem rock. Logo, é MPB...

Não... Não funciona. Chico Buarque é sambista, em essência, mas é MPB. Alceu Valença é forró, mas é MPB. Almir Sater é sertanejo, mas é MPB. 14 Bis é rock progressivo (??!!!), mas é MPB.

Portanto, sou obrigado a desistir de classificações por ritmo, letra, orquestração, forma de cantar, etc., e partir pra minha experiência de botequeiro e, acima de tudo, ouvinte atento.

Primeira consideração: outro dia estava tocando com um amigo em um bar em Pirenópolis-GO e, em dado momento, ouvimos de uma das pessoas presentes o seguinte: "eu sou novo mas adoro essas músicas antigas". Isso porque o repertório desse meu amigo (eu estava só tocando) era basicamente Lenine, Zeca Baleiro, Ana Carolina... Ou seja: coisas bem "novas".

Segunda: tem uma certa rádio FM que eu gosto bastante de ouvir e que se diz "Nova". Uma rádio que se considera a porta-voz da nova música popular brasileira. Estranhamente, 80% do repertório dessa rádio é formado por músicas com uns bons 30 anos de idade.

Terceira: quem é assinante de uma certa rede de TV tem um monte de canais de música. Um deles é o canal de MPB. Fiquei ouvindo esse canal por um tempo considerável ontem à noite e nenhuma das músicas que tocou tinha menos de 20 anos de idade.

Minha conclusão inevitável: MPB significa "música velha". Não interessa se foi gravada e lançada ontem. Se a música não se encaixa em nenhum dos modismos que pretendem ser globais mas que não passam de brazucas, já nasceu velha, tem um público em sua maioria quarentão ou cinquentão e é, portanto, enquadrada no rótulo MPB.

Aliás, talvez já esteja mais do que na hora de trocar a sigla para MVB.


Postado em 06/05/2011 às 19:00      2 comentários

 

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