Vão-se os ícones, ficam os dados

Por volta de 1975, eu me deliciei assistindo no cinema uma reprise do clássico "2001 - Uma Odisséia no Espaço", dirigido por Stanley Kubrick e com roteiro baseado no livro de Arthur Clarke. Nesse filme, cujo lançamento foi anterior à época do primeiro pouso tripulado na Lua, um computador sabota uma missão cuidadosamente planejada por se achar mais capaz que os reles seres humanos para cumpri-la...

Esse computador - HAL 9000 - ocupava um espaço imenso em uma nave espacial que deveria levar alguns humanos a Júpiter. Toda uma sala esterilizada e imaculadamente branca, na verdade. Conforme as funções superiores da inteligência artificial de HAL foram sendo desligadas, ele se mostrou apenas capaz de cantar uma música que o prof. Chandra, seu projetista, o havia ensinado.

No ano seguinte ao lançamento de "2001", os seres humanos pisaram na Lua pela primeira vez, levando a bordo do seu rojão sofisticado um computador com capacidade de computação pouco maior que uma calculadora dessas que a gente compra no camelô da esquina, hoje em dia.

Na década seguinte, os maluquinhos da NASA mandaram para Arthur Clarke e Stanley Kubrick uma cópia dos vídeos feitos na primeira estação espacial - o Skylab - que pareciam muito com cenas mostradas no já saudoso filme...

Arthur Clarke sempre foi considerado uma espécie de "profeta" do futuro da humanidade. Em suas obras de ficção científica, ele previu avanços que só se concretizariam muitos anos depois, além de alguns que não se concretizaram e alguns que estão em fase de concretização. Eu, como leitor ávido de ficção científica na minha meninice, sonhava com um mundo do ano 2000, quando eu teria inatingíveis 36 anos e quando os carros voariam, a gente apertaria um botão e a comida sairia pronta da geladeira, não haveriam doenças, quem sabe haveria um teletransporte...

Nada disso se concretizou. Os carros continuam andando nas ruas e criando engarrafamentos. A comida ainda precisa ser cozinhada, ou pelo menos colocada no tal do microondas. As doenças estão aí e algumas novas eu vi surgir. Todas essas previsões que eram "certas e claras" faliram.

A única previsão que nenhum escritor de ficção científica fez foi a que se cumpriu. Quando eu tinha 10 ou 12, ou mesmo 15 anos, ninguém nunca previu que, um dia, todos teriam um computador em casa. Computadores eram coisas como o HAL 9000. Ocupavam um espaço imenso e eram destinados a funções altamente científicas. Se eles tocassem uma musiquinha é porque estavam pifando...

Bem... 40 anos se passaram e eu estou aqui escrevendo em um computador do tamanho de um livro de ficção científica bem encadernado, que é apenas um dos 5 que tem na minha casa... Ele não apenas toca musiquinhas, como me permite compor e gravar o que eu quiser. Ele não realiza funções científicas altamente complexas, mas permite que eu me distraia, que eu me comunique com pessoas em qualquer lugar do mundo...

O que causou essa mudança?

Olha, como historiador, eu sempre desconfio de nomes. Mas, nesse caso, eu devo ao menos render uma homenagem: o causador do fim das profecias sobre o futuro tem um nome, sim. O nome é Steve Jobs.

No espaço de tempo entre eu me animar a comprar o meu primeiro PC que servia exatamente para nada - em 1985 - e o momento atual, esse ser humano fantástico transformou o mundo e a forma do mundo se enxergar. Quantas modificações reais ocorreram na sociedade contemporânea apenas porque Mr. Jobs apostou que o computador poderia ser uma ferramenta não de sábios, mas sim de pessoas comuns?

Vivemos hoje num mundo não mais redondo... Acho que ele tem mais ou menos a forma de uma maçã. Uma maça mordida por Mr. Jobs, que a partir de agora nos olha lá de cima, quem sabe rindo junto com os Seres Supremos de Arthur Clarke.


Postado em 06/10/2011 às 22:04      0 comentários

 

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