Inquisição biomolecular

No último sábado (11/02), nasceu o primeiro bebê brasileiro selecionado geneticamente para um fim específico. No caso, a filha de 5 anos do casal sofre de uma doença rara no sangue - talassemia major - que exige constantes transfusões e doses diárias de medicamentos, e que pode levar à morte. O bebê foi gerado, portanto, a partir de um dos embriões fertilizados in-vitro, de forma a não possuir o gene da doença e, além disso, ser totalmente compatível com o DNA da irmã. Dessa maneira, surge a possibilidade da cura da doença a partir de um transplante.

A cada caso desse, reacende-se a velha polêmica. Grupos religiosos apressam-se em condenar as práticas da biologia molecular e em erguer protestos "a favor da vida". A caduca frase - "os cientistas querem brincar de Deus" - é sempre ressuscitada e os eternos argumentos tacanhos, baseados em interpretações canhestras ou fanáticas dos "textos sagrados", são invariavelmente repetidos.

Mas, usando-se os próprios argumentos dos religiosos, o que seria mais " a favor da vida"? Descartar-se 9 embriões que ainda não foram implantados para que um possa nascer e, dessa forma, salvar a vida da irmã, ou simplesmente deixar a criança doente morrer? Utilizar a ciência para salvar vidas é "brincar de Deus", ou deixar de usá-la é desperdiçar a inteligência e a capacidade inventiva que, segundo os próprios religiosos, Deus deu ao homem?

Em fins do século XVIII, o herdeiro da Coroa Portuguesa, D. José (irmão mais velho de D. João VI), morreu de varíola, em uma época em que a vacina para essa doença já era conhecida. Motivo: a extrema carolice da Corte portuguesa, cujos princípios religiosos não permitiam que seus membros se vacinassem. Os tempos não mudaram tanto assim...


Postado em 15/02/2012 às 12:37      0 comentários

 

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