A morte de Deus e o (re)nascimento da Terra

Sendo um ávido espectador de documentários sobre o meio ambiente e um razoável conhecedor da história, acabo me vendo forçado a algumas conclusões, talvez nem um pouco simpáticas...

Comecemos com alguns dados, colhidos aleatoriamente: 3/4 dos recifes de coral do mundo comprometidos; inúmeras espécies entrando, a cada ano, na lista das ameaçadas de extinção; um processo de aquecimento global intensificado pela falta de escrúpulos nos processos industriais. Os esforços para conter essas ameaças partindo quase sempre da iniciativa privada, que mendiga recursos, ao passo que diversas das nações mais ricas do mundo gastam parcela considerável do seu orçamento com "segurança" - leia-se "armamentos".

Vou então fazer a minha afirmação aparentemente absurda e certamente herética: precisamos matar Deus para salvar a Terra. Quem não se sentiu suficientemente atingido, leia até o final.

A civilização ocidental foi construída a partir do ódio contra a natureza, por um motivo simples: o que a alicerçou foi a crença em uma divindade apartada de sua suposta criação, em doutrinas que postulam que na natureza inculta, "selvagem", reina o Mal, a tentação, o demônio. A natureza precisava ser cultivada, dominada, tornada humana, para também ser considerada divina, parte do "plano da Criação" que a subordinava, por graça de Deus, ao Homem. Esse argumento não é meu nem é novo. Frederick Turner, por exemplo, o explanou magistralmente na sua obra A Civilização Ocidental contra a Natureza.

Esse raciocínio bastaria para explicar coisas como o desmatamento indiscriminado, a transformação de florestas em pastos, a caça e a pesca predatórias ou a falta de preocupação com as emissões de poluentes desde os tempos da Revolução Industrial. Mas não para por aí...

Em momentos facilmente determináveis da história, a crença nesse Deus-Criador que tem ódio à sua própria criação acabou por se ramificar e assumir interpretações várias e antagônicas. Era - e continua sendo - a mesma divindade, mas a sua inacessibilidade intrínseca acabou contrapondo violentamente suas diversas interpretações. Inicialmente, o "deus-judeu" se opôs ao "deus-cristão". Em seguida, o "deus-islâmico" se opôs a ambos. Mais recentemente, o "deus-católico" se opôs ao "deus-protestante"... E todas essas faces de um mesmo deus se colocaram radicalmente contra todas as inúmeras divindades imanentes, mais antigas e ditas "pagãs".

O resultado dessas contraposições todos conhecemos: mais de 20 séculos de guerras, perseguições e massacres em nome da "religião correta", da "raça escolhida" ou da "terra prometida". Dificilmente poderemos separar qualquer dos incontáveis conflitos dos últimos dois mil anos de pelo menos um desses motivos, ainda mais levando em consideração que, desde o seu início, a civilização ocidental teve a sua política grandemente atrelada à religião.

Portanto, a concepção do Deus ocidental impunha a domesticação da natureza e a consequente destruição do seu equilíbrio, ao passo que as diversas interpretações desse mesmo Deus impunham a rivalidade entre os povos, a guerra entre eles e a consequente corrida armamentista. A grande maioria dos recursos dessa parcela da humanidade que se tornou hegemônica foi empregada, enfim, na sua autodestruição, em nome de Deus, de forma consciente ou não.

Há, efetivamente, males que não podem mais ser remediados. Mas imaginemos que os recursos que hoje em dia são destinados à "guerra contra o terror", à "segurança nacional" ou coisa que o valha, pudessem ser destinados a ações para a preservação e conservação do meio ambiente. Se um pequeno grupo de pessoas, com escassos recursos doados por turistas e usando grades feitas de vergalhões, conseguem recuperar recifes de corais nas Ilhas Maldivas, o que seria possível com os inúmeros bilhões de dólares destinados anualmente à defesa?

No entanto, o ciumento deus da discórdia, que queria ser único e se tornou vários, não permite isso. Dessa forma, minha conclusão antipática se torna inevitável: matemos Deus, se quisermos que a Terra renasça. Mantenhamos a crença nesse deus do céu, se quisermos que a sua criação (que ele sempre odiou) morra, rapidamente ou aos poucos.

Postado em 28/01/2015 às 22:00      0 comentários

 

Voltar