A Democracia nas sombras

Hoje o Brasil acordou mais triste...

Nossa frágil democracia, tal qual vítima de múltiplo estupro, se escondeu nas sombras, junto ao lamento dos famintos, ao gemido dos doentes, ao desespero dos oprimidos, a vergonha dos discriminados, a desesperança dos que lutaram durante 20 anos contra uma ditadura truculenta.

Foi vilipendiada nos últimos dias, ao ser colocada no centro do picadeiro de um circo de aberrações, no qual o último ato grotesco se arrastou dolorosamente pela noite de ontem.  Parlapatices ensaiadas de discurso de miss: "deus, a família..." - faltaram, talvez "os patrocinadores", para que os discursos se aproximassem mais da realidade. Talvez fosse interessante avisar a esses que se tratam de "excelências", e que nada de excelente apresentam, que, se um deus houvesse, ele não precisaria ser defendido por mãos sujas e bocas mentirosas.

Um vota pelo pedido da filha de nove anos... - fantástico exemplo de aconselhamento político. Outro elogia um torturador confesso - e os mortos se reviram em seus túmulos, seja lá onde estes estiverem. Alguns exaltam o agronegócio - e os milhares de camponeses sem terra sentem nas costas o peso dos latifúndios.

Vergonha, vergonha...

Resta um recado aos que foram às ruas e apoiaram esse circo: sinto dizer, mas os senhores são burros ou mal intencionados. Compreendo os burros: são simples resultados de um sistema de ensino que tradicionalmente privilegiou as ciências exatas em detrimento das humanas; um sistema que quer formar tecnocratas submissos, e não livres-pensadores. Compreendo igualmente os mal intencionados: querem manter viva a possibilidade de um dia também levarem alguma vantagem em um sistema deteriorado pela corrupção. Só não compreendo como podem, em nome do país, da lisura, ou mesmo - coitada! - da "democracia", apoiar o afastamento de um presidente sobre o qual não pesa acusação alguma de corrupção para substituí-lo por corruptos investigados. Sejam mal intencionados ou burros, sinto lhes dizer: foram apenas massa de manobra.

Aos famintos, doentes, oprimidos, discriminados, perseguidos, aos que conseguem ainda pensar, meu recado é outro: frágil, machucada, estuprada, ainda assim a democracia se encontra ao lado de vocês, nas sombras. E só há sombra onde há luz, nunca na escuridão total.

Postado em 18/04/2016 às 09:07      0 comentários

 

Voltar