Distopia

Vamos usar a imaginação...

Imaginem que os cientistas, finalmente, conseguiram localizar um planeta habitado e próximo o suficiente para permitir a comunicação com os seus habitantes. Obviamente, comunicação interplanetária é sempre complicada - envolve um lapso de anos entre o envio de uma mensagem e a chegada de sua resposta. Dessa maneira, os cientistas, assim que se certificam de estarem sendo ouvidos por algum habitante desse planeta, enviam uma longa mensagem, pedindo que descreva sua cultura, seus costumes, suas formas de governo, e assim por diante.

Alguns anos depois, chega a resposta.

O correspondente interplanetário começa seu relato dizendo que pode apenas falar sobre seu próprio país, já que há uma grande diversidade no planeta, e passa a descrever seu sistema político. Assevera que existem duas facções principais, embora existam inúmeros partidos políticos. Uma dessas facções defende uma minoria pertencente à elite, enquanto a outra diz defender a população menos favorecida, que é a esmagadora maioria. No entanto, ambas as correntes políticas são irremediavelmente contaminadas por corruptos. Segundo seu relato, os destinos políticos do seu povo são governados, na verdade, pela corrupção e pelos interesses da elite. As facções vêm se revezando no poder nos últimos anos, de uma forma curiosa: quando uma delas assume o poder pelo voto, a outra, ao se sentir desfavorecida, articula manobras para destituí-la. Dessa maneira, apesar de louvarem as vantagens da democracia, o voto quase nunca é respeitado.

Segue o relato contando como as grandes empresas de mídia manipulam as informações de acordo com seus próprios interesses e, assim, transformam ladrões em heróis, intelectuais em crápulas, artistas medíocres em grandes sucessos. A produção cultural do país é variada e rica, mas apenas é divulgado o que essas grandes empresas de mídia desejam: geralmente o que há de mais apelativo e grosseiro, levando a uma degradação geral dos costumes.

Essa manipulação e degradação - prossegue ele - é interessante para os governantes, que desejam manter a maior parte da população na ignorância. Prova disso é que a educação no país está completamente sucateada, e os professores estão entre as classes de profissionais menos valorizadas. A saúde da população também está minada, já que apenas têm acesso eficiente a médicos, hospitais e exames são aqueles que podem pagar por isso.

Como uma triste nota final, o correspondente interplanetário acrescenta que a própria religião é manipulada pelas mesmas forças dominantes em seu país, uma vez que há empresas de comunicação e políticos ligados a seitas específicas, que usam do seu poder para demonizar as demais e impor suas opiniões e interesses, geralmente de caráter misógino e racista... Termina dizendo que, apesar de tudo, ama sua terra e que existem lugares no planeta bem piores.

Quando o estranho relato desse correspondente, que se diz de um lugar chamado Brasil, num planeta chamado Terra, vem a público, o Conselho de Governantes do planeta dos cientistas decide encerrar todas as comunicações com aquela triste distopia.

Postado em 09/06/2016 às 12:17      0 comentários

 

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